PENICHE

A Origem - O concelho de Peniche viu desde tempos remotos o seu território ocupado por populações que explorando os recursos naturais disponíveis viram na pesca e na agricultura as suas principais actividades económicas.  Desde cedo que esta região estremenha parece ter despertado o interesse das comunidades de caça-dores recolectores que face à diversidade de recursos disponibilizados pelo seu hinterland aqui se fixaram.
Os vestígios mais antigos da presença humana no território de Peniche remontam ao Paleolítico Inferior correspondendo a cerca de 20 sítios dos quais se salientam pelo espólio recolhido Alto da Seixeira, Casal das Figueiras, Quinta da Barrada (dois sítios) e Porto de Lobos (Atouguia da Baleia) e, Baleal, Alto da Seixeira e Pedras Muitas (Ferrel).^

Todavia, a ocupação pré-histórica deste território assume maior representatividade, em termos arqueo-lógicos, a partir do Paleolítico Médio existindo para este período uma estação de referência obrigatória -  a Gruta da Furninha.
Com efeito, as estações de cronologia Pré-Histórica claramente referenciadas no concelho correspondem a ocupações em gruta. Para além da Gruta da Furninha, estação com vários níveis de ocupação que se sitam entre o Paleolítico Médio e o Neolítico, refere-se a existência de um importante complexo de grutas localizadas a Sudoeste no planalto das Cesaredas. Este complexo rochoso que se estende por outros dois concelhos: Óbidos e Lourinhã, viu as suas cavidades naturais serem utilizadas enquanto necrópoles durante um vasto horizonte cronológico sito entre o Paleolítico Superior e a Idade do Bronze. Destas grutas salientam-se pela importância do espólio recolhido a Gruta da Casa da Moura (concelho de Óbidos), a Gruta da Lapa Furada e a Gruta da Malgasta (concelho de Peniche).

Apesar de um relativo desconhecimento, não será abusivo imaginar uma região que com uma presença omnipresente do mar e uma extensa bacia hidrográfica moldada pelo Rio de S. Domingos e Ribeira de Ferrel fosse palco de um complexo sistema de trocas de índole regional e inter-regional, assumindo um papel de intermediação e redistribuição de artefactos e ideias de horizonte atlântico e mediterrânico (facto comprovável pela análise do espólio recolhido maiori-tariamente em contexto funerário), ao mesmo tempo que se consolidava uma economia assente na exploração agrícola das férteis terras aluviais  e na exploração de recursos estuarinos e marinhos.

Com efeito, esta última componente parece ter assu-mido especial importância à época romana como parece demonstrar a existência de um complexo oleiro que terá laborado no séc. I  d. C. junto ao Morraçal da Ajuda (Peniche), do qual conhecem-se quatro fornos, e que se teria dedicado principalmente à produção de ânforas destinadas ao envasamento de preparados de peixe.
A então ilha de Peniche assentaria a sua actividade económica na exploração de recursos marinhos, nomeadamente na produção de preparados de peixe, produção que entre outras alimentava um comércio de médio e longo alcance sucessor das rotas comerciais  fenício-púnicas, e que teria na Ilha da Berlenga um fundeadouro natural e privilegiado cais de embarque desse preparados como parece ser demonstrado pela identificação nestas águas de cerca de uma vintena cepos de âncora romanos e pela recolha na dita ilha de fragmentos de ânfora apresentando tipologia e marcas de oleiro idênticas às ânforas cozidas nos fornos romanos do Morraçal da Ajuda.

Pouco se conhece sobre este território para o período sito entre o Baixo Império e o início do 2 º milénio d. C. . Todavia é de supor que nem o padrão de povoamento nem a infra-estrutura económica terão sofrido profundas mutações relativamente a épocas anteriores.  
Para a Idade Média as fontes históricas falam de uma ilha de Peniche integrada na esfera económica e administrativa da importante herdade e depois vila de Atouguia da Baleia.
Com efeito, esta localidade hoje localizada no interior do território a alguma distância do mar, conheceu durante a Idade Média um grande desenvolvimento económico mercê do seu porto de pesca considerado à época de D. Dinis um dos portos mais importantes do reino. Este desenvolvimento económico possibilitado por uma rentável actividade piscatória, assente na captura de peixes de médio e grande porte como é o caso da baleia (cetáceo que dá nome à vila), e por uma frequente navegação mercantil de cabotagem, permitirá a autonomia administrativa deste território face a Óbidos. Esta autonomia é concretizada em 1158 com a concessão em Foral da herdade de Touguia por D. Afonso Henriques a Guilherme de Cornes (de Corni), cruzado franco que terá servido este monarca na tomada de Lisboa. Guilherme de Cornes procurando povoar este território partilha-o com alguns compatriotas através de forais que são concedidos e continuamente confirmados pelos vários monarcas medievais.

Desta vila medieval salienta-se no que toca a património edificado a Igreja de S. Leonardo, um dos primeiros exemplares a nível nacional da arquitectura gótica, datável do séc. XIII, e um pequeno troço da muralha medieval, indiciando que a vila possuiria uma cerca muralhada.
Até ao séc. XVI a ilha de Peniche terá vivido na dependência económica e administrativa da Vila de Atouguia da Baleia sendo que estando este território sujeito a constantes incursões da pirataria muçulmana nele apenas existiriam alguns barracões destinados ao acondicionamento do pescado e artes de pesca, e alguns, poucos pescadores, escolhiam a ilha como residência.

Com o dealbar do séc. XV catalisa-se um longo processo de transformação geográfica assente na formação de um cordão dunário que motivará o assoreamento do até então importante porto de Atouguia da Baleia e a longo prazo o estabelecimento de uma ligação definitiva da ilha de Peniche ao continente através do actual tômbolo. Paralela a esta lenta transformação geográfica decorre o longo processo de decadência económica e administrativa da Vila de Atouguia da Baleia em detrimento de uma próspera povoação de Peniche que um 1609 é elevada à categoria de vila e sede de concelho autonomizando-se de Atouguia da Baleia. Se até ao séc. XVI o povoamento da ilha de Peniche terá sido pouco mais que insipiente a partir deste período este território será alvo de um povoamento efectivo proporcionado pela exploração dos recursos económicos disponíveis: agricultura (trigo, cevada, vinho) e, obviamente, a pesca; e pela edificação faseada de um sólido sistema defensivo inibidor dos ataques de piratas muçulmanos, até aí frequentes nesta costa, e bastião contra desembarques hostis.

É D. Afonso de Ataíde, senhor da Atouguia, quem pela primeira vez adverte para a importância geo-estratégica da ilha de Peniche recomendando a erecção de uma fortificação que defenda a ilha. Contudo, será com o seu filho D. Luís de Ataíde que por ordem de D. Sebastião serão iniciadas em 1557 as obras de fortificação de Peniche sendo o baluarte Redondo a primeira construção a ser erigida. Com a dinastia dos Filipes regressam as preocupações defensivas em redor desta região. D. Filipe II  chamando a atenção aos governadores de Lisboa adverte para a necessidade de se proceder à construção de uma fortaleza na ilha da Berlenga e se reforçar o sistema defensivo de Peniche com a construção de uma forta-leza na zona do chamado Alto da Vela que integrasse o baluarte Redondo e um pano de muralhas da época de Luís de Ataíde entretanto inacabado.

Todavia, será apenas com D. João IV que considerava Peniche a principal chave do Reino pela parte do mar que estas intenções serão concretizadas com a conclusão em 1645 da Fortaleza de Peniche e em 1656 da Fortaleza de S. João Baptista na ilha da Berlenga. Seguiu-se a construção de uma cortina defensiva composta por uma linha de muralhas ligando dois baluartes e dois meio baluartes atravessando os terrenos do istmo de mar a mar. Após alguns contratempos iniciais os trabalhos são retomados em 1659 pela alçada do engenheiro–mor Carlos Lassart que alterando o projecto inicial do engenheiro francês Nicolau de Langres vê os trabalhos concluírem-se em 1671.

Esta linha é encabeçada pelo Forte das Cabanas, fortim que defenderia o braço de mar que ao longo da face oriental da antiga ilha ligava o dito ilhéu das Cabanas em Peniche de Baixo à Camboa, em Peniche de Cima, braço de mar que durante séculos foi aproveitado como porto de abrigo (por isso designado Portinho do Meio) e utilizado igualmente como fosso militar. Esta linha muralhada é ainda composta pelos baluartes da Misericórdia e da Ponte e pelos meio baluartes de S. Vicente e da Camboa.

D. Afonso V em 1448 concedeu o título de Conde de Atouguia (então sede do Concelho) a Álvaro Gon-çalves de Ataíde, depois alcaide-mor de Peniche. D. Luís de Ataíde, duas vezes vice-rei da Índia, foi quem mais se distinguiu na linha de sucessão da alcaiadaria. (Pinho Leal conta-nos que vindo da Índia onde poderia ter acumulado riquezas, só trouxe quatro barris de água dos principais rios da Índia: Indo, Ganges, Tigre e Eufrates, e que por muito tempo foram as pipas vistas no Castelo de Atouguia), tendo fundado em 1552 o Mosteiro do Bom Jesus (perto da actual Igreja da Ajuda em Peniche) onde quis ser sepultado. Em 1834, foi profanado o convento tendo servido para arrecadação dos militares da Praça.

Terminou o poder dos Ataídes como se sabe, com Pombal, ligando D. Jerónimo de Ataíde à tentativa do regicídio, executando-o em Belém com os Aveiro e os Távoras, e exterminando-lhes os bens e o título. Muito tempo antes, em 1589, também viu aqui em Peniche um futuro rei gorar-se a sua sorte: D. António Prior do Crato, que, com o auxílio da esquadra inglesa desembarcou na praia sul de Peniche, tendo daí marchado para Lisboa. A marcha deste exército fez-se selvaticamente, mais se preocupando os ingleses em saquear e roubar o que podiam pelo caminho do que em se constituir exército disciplinado e capaz de defender as aspirações do pretendente ao trono. É deste comportamento miserável e desleal que nasceu o epíteto dos "amigos de Peniche", rotulando os ingleses e não os da terra, por ignorância injustamente caluniados dessa odiosa traição. Povo bem pelo contrário disposto a apoiar tenazmente e sem peias, D. António...

Povo afinal que virado à pesca se viu de outras tarefas incumbido pela própria condição geoestratégica de Peniche, manápula de terra aberta em dedos de carreiros, portos, ilhéus e fusetas a estender-se para a óbvia vocação do mar. E deste mar sai peixe e marisco sem igual, que pelas inúmeras casas de refeições se distribui, a provocar-nos o apetite.
Das catedrais soberbas de penadia que tem Peniche, Nau dos Corvos e pedra de Galé como seus anjos candelários, ergue-se o Santuário da Senhora dos Remédios, formosa ermida toda de azul revestida em azulejos do Século XVIII, no delírio figurativo de António de Oliveira Bernardes. Da mesma penadia nasce a cidadela, fortaleza erguida contra a estran-geira e corsária intromissão: e é ainda a mesma pena-dia que defende Peniche da sua própria ousadia em intrometer-se pelo mar adentro, mar que na ineficácia do seu recontro com a fraga, em renda de espuma se desfaz. Renda que por sua vez inspira este povo a criar pelo bilro, o delicado símbolo da sua homenagem de respeito e gratidão ao oceano ao qual, na humildade da sua grandeza, reconhece tudo dever.

Localização Geográfica

O concelho de Peniche está situado na província da Estremadura, no litoral da Região Oeste, e tem como limites, a Norte e a Oeste o Oceano Atlântico, a Sul o concelho da Lourinhã e a Este o concelho de Óbidos. Dista cerca de 90 km de Lisboa e 85 km de Leiria.
Administrativamente, pertence ao Distrito de Leiria e, do ponto de vista eclesiástico, à Diocese de Lisboa. Em termos europeus, está integrado na NUT III, Região de Lisboa e Vale do Tejo.
O concelho de Peniche tem cerca de 27312 habitantes que, repartidos pelos seus 76,96 quilómetros quadrados de superfície, apresenta a maior densidade populacional da zona oeste do País. No período estival, especialmente no mês de Agosto, o número de moradores no concelho aumenta significativamente como consequência da utilização daquilo que o concelho tem para oferta em termos turísticos, a sua principal actividade económica.

A área total do concelho é de 7.696 ha, dos quais cerca de 500 estão afectos à utilização florestal, com predominância do pinheiro. Os solos agrícolas representam parte muito significativa da área do concelho, reflexo da actividade dominante na zona rural.
O concelho de Peniche não revela grandes diferenças entre os seus pontos mais altos e os de menor altitude. A sua altitude média é de 73 metros, sendo a localidade de Serra d’El-Rei a mais elevada, com 135 metros, e a de Casal Moinho, na Atouguia da Baleia a mais baixa, com cerca de 12 metros.
Como parte significativa do concelho é limitada pelo Oceano Atlântico e a altitude média não é elevada, existem muitos terrenos de composição arenosa, especialmente na freguesia de Ferrel, e de composição franco-arenosa (freguesia da Atouguia da Baleia). A composição de parte destes terrenos é proveniente da erosão que se faz sentir em terrenos próximos de linhas de água.
Na freguesia de Serra d’El-Rei é extraída argila, matéria prima essencial à indústria da cerâmica.


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