Na segunda metade dos anos oitenta do século passado, fui convidado a expor em Toronto e em Nova Iorque. Esse desafio fez-me pensar mais a sério na minha estética artística: não queria chegar à América com …mais do mesmo e igual aos outros. Queria ser mais eu; resultado: inventei o VISIONISMO.

 

Como no banho de Arquimedes, foi de forma acidental que lá cheguei. Ao entornar inadvertidamente, sobre uma tela posta na horizontal, a água de um copo onde mantinha os pincéis sujos de óleo (para que não secassem de um dia para o outro), provoquei um desastre que, no primeiro instante, me parecia ter inutilizado todo o trabalho em curso; mas num segundo olhar, depois de ter praguejado o suficiente para me acalmar, constatei que a mancha de cor acidental tinha umas misturas e formas impossíveis de recriar por outro processo. Além do mais, ainda sugeriam situações plásticas que podiam ser trabalhadas posteriormente: a água, ao evaporar, ia libertar o pigmento do óleo (água e óleo não se misturam), o que não inviabilizava a minha técnica de pintura a óleo. Com este acaso, ou seja: ao sincronizar este acaso com a criatividade, estou perante um processo artístico impar e universal: o visionismo.

Desde aí, nunca mais abdiquei de desenvolver este conceito; olhando para trás, não poderia ter feito melhor.

                                                                                                                    Luís Vieira-Baptista



Um manifesto dá conta, desvela, mostra as miras e as actuações de um grupo. Por escrito. Esta passagem necessária pela grafia indica um apelo à memória que não exclui, no entanto, uma relação fundamental com a oralidade. Com efeito, esta inscrição, este aprovisionamento da memória, convoca o oral ao situar-se fora do campo do confronto binário entre o escrever e o falar. A memória restaura aqui um vivo soterrado, desperta mecanismos, o corporal que, por essência, escapa à fixação, ao domínio.
Assim, o oral aqui referido, não remete tanto para um discurso mas antes para o que lhe é subjacente, para uma zona vaga, indizível, ou seja o sabor, o gosto. "Manifestus" significa evidente, no sentido de palpável, indicando deste modo a raiz táctil do olhar. Ver não é nunca simplesmente ver e qualquer evidência visual (ou teórica) resulta não apenas de um caminhar como também de um enredo, de um entrelaçamento dos sentidos. O Visionismo trabalha na rede e na convivência, avança costeando, experimenta a corporalidade da visão, inquieta-se com o contentamento na postura espiritual, com o domínio sossegador e toma em conta, de algum modo, a cegueira do olhar.
Preserva o sufixo "ismo" simplesmente para dar a ideia de movimento que lhe é essencial, no sentido de um "tremido" capaz de acentuar a indeterminação da atmosfera; no sentido, ainda, de uma abertura às condições de microvertigens, de fugazes epilepsias.
A atomosfera é o que não tem cara. É algo de invisível que porém se imprime, ressurge algures, num outro momento. A força do ínfimo, dos quase-nadas que criam a atmosfera, provém sobretudo das relações que eles entretêm num espaço e num tempo. Cada variação gera uma diferenciação atmosférica. O Visionismo coloca uma série de elementos, põe-os em situação. Pintura, escultura, música, vestuário, texto, exibem uma diferença matéria, conceptual, estilística e encontram-se no entanto envolvidos, dobrados, num movimento que é um momento, um ritmo.
Nesta organização reticular, o público intervém enquanto acidente, originando uma alteração atmosférica. Desorganizado, ele penetra a atmosfera e reage como um organismo, de maneira inspiratória ou expiatória. Faz corpo com a rede, por enxerte ou autotomia, e modifica, por conseguinte, a situação.

De resto, esta desorganização constitutiva explica a proposta da "aproximação". A aproximação determina simultaneamente o acolhimento, a abertura ao outro e a desconfiança, um deslocamento táctico. A aproximação opõe-se ao traçado de um percurso obrigatório, indica apenas uma maneira de abordar a atmosfera, a qual, por ser invisível, não deixa de resultar de um concepção. Ou melhor ainda, o envelope, a derme de um acontecimento construído como um espectáculo, uma máquina. Produzir-se-ão então mudanças, interpretações variando segundo a cronologia e a meteorologia. Haverá a primeira noite e os outros dias como há a missa cantada e as de todos os domingos. Haverá a clareza do Sol ou a luz falpada das nuvens, a circulação barulhenta dos espectadores ou a deambulação clandestina de um solitário, haverá o compasso e a espiagem...

Ao costear, os Visionistas formam um corpo e este corpo nasce de uma junção de corpos, de um crescimento no modo metonímico, de uma aglutinação. Composto por elementos díspares, o corpo, este grupo, corre um risco: e se nada pegasse? O corpo-grupo, máquina articulada, emana a sua cola a partir do seu próprio agrupamento, ele exsuda o seu glúten cria uma massa, dá-lhe uma forma múltipla e móvel que, por sua vez, distila um película viscosa, uma última pele impalpável, intangível e, porém, tão presente, a atmosfera. E esta envisca o espectador como uma partícula aglomerando-se ao conjunto. As dobras, a agitação do tecido e da fibra, velam e desvelam a imagem, tornam-se, à semelhança dos vestidos, anexos da obra- corpo. Ao envolver a imagem, as dobras dão um toque final e mutável à superfície dérmica.
Importa notar que o primeiro encontro, a colagem do início advém sob o signo da massa. O primeiro hospedeiro dos Visionistas irá ser uma empresa de massas e o seu primeiro espaço o do armazém da fábrica. Talvez se deva ver neste caso a presença da sorte (a fortuna), ou seja, o próprio encontro. É o retorno de algo que deixa entrever na repetição o seu elo com o mecânico. Mas, ao mesmo tempo, este retorno consiste num aparecimento, um acontecer indissociável da atmosfera. Neste sentido, o encontro, que reside na base do Visionismo, tece uma relação estreita com o sagrado e exige, tal como o espectáculo, um ritual. A imagem põe-se em representação e requer então um teatro, um lugar sagrado ou sacrílego. O armazém de massas reencontra a sua arquitectura primitiva, torna-se de novo claustro, lugar onde se dá a ler o irrepresentável, Mysterium tremendum, lugar, por excelência, do atmosférico. O espaço não se reduz a um sítio destinado a receber as obras, a uma garagem, ele interfere, desdobra a sua força, distila a sua vivência: os murmúrios do crente, a transpiração do operário, o sopro celeste e a ronqueira dos motores, sem esquecer as queimaduras causadas pelo incêndio, as cicatrizes deixadas pelos enxertes ou pelas cirurgias arquitectónicas e as transformações; ou, ainda, as rugas escavadas pelos ventos e pela humidade... Para os Visionistas, as paredes têm ouvidos, e também olhos, mãos e narículas. O lugar desdobra-se como paisagem de sensações que deixa advir a atmosfera, ou seja, a imagem visionista.
O Visionista distingue-se do visionário, o seu olhar não antecipa, procura capturar. A imagem visionista assemelha-se a uma mancha que armadilha o olho, desperta o movimento vital ligado à imaginação. Às vezes a mancha, ponto cego, turbilhão de luz e de matéria, metamorfoseia-se num olho meduseante, capta e captura. Esta captura corresponde ao encontro, acontece numa temporalidade específica, o instante o "kairos", o momento propício ou crítico, apanhar a mobilidade torna-se o móbil do acto criador. O Visionista não prevê, não prediz, ele visiona. Visiona o mundo como se visiona um filme, tendo em vista a montagem das séries de instantes, operação na qual o olho, automatizado, actua sobre a mobilidade da imagem. A inscrição no tempo marca a sua relação com o real e evidencia o facto do Visionista não alucinar. Ele ilusiona. O Visionista trabalha o movimento da imagem, o movimento como catalisador dos sentidos que presentificam todos os elementos ao serem signos (sobretudo quando parecem "insignificantes"). A imagem que surge aqui decorre de uma interacção e, por isso mesmo, a imagem visionista não pretende ser estritamente visual ou visível mas sobretudo atmosférica. A imagem visionista emerge como uma forma global, procura estimular a faculdade ilusionável do homem, faculdade da qual depende a sua sobrevivência e a imortalidade da espécie. A faculdade na origem de todo o encontro.


                                                                      Chaké Matossian
                                                                      Doutorada em Filosofia e Teoria da comunicação.
                                                                      Professora no Departamento de Comunicação Social
                                                                      da Universidade Nova de Lisboa.



A CAMINHO DO VISIONISMO-85/90

Tela branca. Enrolada. Madeira leve, bem seca. Esticador. Monto a grade, agrafo o linho. Já rufa; parece um tambor. Olho-a de perfil: não quero foles camuflados na imensidão do branco. Cheiro-a deliciosamente, avidamente, percorro-a com a ponta dos dedos. Tomo-lhe a dimensão, de olhos fechados: abraço-a. Deito-a no chão com a excitação dum amante. Agarro nos tubos de óleo das cores que me estão a incendiar o coração e espremo-os com volúpia para um frasco onde lhes junto as essências seminais indispensáveis à concepção e fecundo-a com um gesto viril, orgásmico, natural, espontâneo. As várias cores espalhavam-se em convulsões espasmódicas. Purifico tudo com água, afasto-me um pouco, ofegante. Despeço-me relutante e espero algumas horas/dia até que o acto seque e ganhe consistência.
Volto com tantas saudades que quero experimentar logo várias posições: giro a tela no cavalete. Para cima, para baixo e de lado. Procuro não sei o quê. De repente vejo! Lá está, bem no meio de tudo, camuflado por percursos enganadores de cores fronteiriças. Descobri o tema do meu novo quadro! Descobri-lhe o desenho! Agora há que isolá-lo, integrá-lo. Agarro nos pincéis e acaricio-lhe os contornos. Desenvolvo o tema até que cresça: já fala. Levo-o à escola dos velhos mestres e escondo-o dos perigos tentadores das modas fáceis que há pelo caminho. Dou-lhe um nome e espero que se case. Se for preciso exponho-o. É isto o VISIONISMO.


                                                                                                                     Luís Vieira-Baptista